Crônicas, Senta que lá vem história

In the bus

São 5:30 e minha mãe liga a luz do meu quarto, meus olhos incrédulos abrem e observam os três origamis que ficam pendurados sobre a cama.
Sempre próximo a mim está meu celular, observo então as horas, sento, penso no time de vôlei.

Levanto e caminho direto para o banheiro, abro o chuveiro deixo escorrer até que seja certo de que a água esteja quente. 15 min depois eu saio  do chuveiro, e penso a onde vai parar toda minha ideologia sobre aquecimento global, econimzar água e todo meu papo ecochato. Logo esqueço que tive uma atitude capitalista e volto a rotina.

Apronto-me e deixo minha casa por volta de 6:30, o ponto de ônibus fica a aproximadamente uns 5/6 min. Nesse meio tempo há uma rua longa, onde é o terceiro lugar que ponho meus pensamentos em ordem. Sendo que o 1º é o vaso sanitário, o 2º o chuveiro(tá explicado a demora). No meio do caminho um fato corriqueiro ronda minha cabeça: conseguir sentar no ônibus.

Faz 2 anos que ando diariamente de ônibus, e como um nerd que consegue finalmente fechar o guitar hero, sentar no ônibus é pra mim um prêmio.

Mas há toda uma questão geográfica e teológica para explicar tudo isso.
70% da massa trabalhista de sorocaba residi na Zona norte, e 70% do mundo é pobre e acaba morando nas áreas mais periféricas da cidade. E por algo que chamo de “conspiração ateica”, eu fui morar justamente na tal Zona norte.

Horário de pico, é quando todo mundo decide se reunir dentro do ônibus, levando suas musicas, suas crianças choronas, suas bundas gordas e todo seu mal-humor. E eu amo muito ir no horário de pico pra escola. Sério.
É uma sensação de adrenalina que me vem, ao ver 3; 4; 5 ônibus passarem com adesivos de pessoas estampadas nas portas e janelas, onde o motorista tem a capacidade de falar “vamu dá um passin pro lado, pra mode de mais pessoa entra“.

Não costumava pegar o ônibus tão tarde, mas agora não há o por que sair tão cedo de casa, então pego o ônibus que passe por volta de 6:35 e 7:00 ( o sinal da escola bate 7:15). Mas aprendi que extamente 6:40 passa um ônibus (que vai ser chamado de bus apartir de agora, por que to cansado de ficar digitando assento) com um corredor livre, e ainda de quebra no meio do caminho sempre aparece um lugar vago. Mas parece que o motorista faz parte da conspiração, e resolveu agora que não para mais no meu ponto.

Estaca zero, volto a ir todos os dias em pé, mas não basta ir em pé, tenho que dividir com mais 140 pessoas. Porra o Brasil tem 8 milhões de quilometros quadrados*, não poderiam vcs, pedreiros, porteiros, vendedor das casa bahia ir para outro lugar? Ó Amazonas lá, tem puta espaço lá.

Ai certo dia estava eu atrasado – coisa corriqueira já, estranho seria se eu estivesse no horário – e decidi que já que estava na merda mesmo não faria mal algum nadar um pouco. Pois bem, ao chegar no terminal fui logo para a fila do bus que passa próximo a escola. Ao chegar na fila logo pensei “to muito afim de sentar, mas meio grande essa fila, acho difícil conseguir algum lugar”, o bus chegou as pessoas foram entrando, umas covardemente entraram sem mesmo estar na fila e roubaram possíveis lugares, poxa  brasileiros gostam de fila*

Certo, entrei no bus e próximo a mim havia uma garota sentada e era bonita, pensei “poderia ficar aqui um pouco pra Zé bucetiar”, mas deu um subito eu vasculhei o ônibus com meus globos oculares e vi, com uma luz remanescendo um lugar vago, no fundo, 2 lugares após a porta no setor comumente chamado de corredor.
Não pensei duas vezes e fui direto sentar, não no melhor mas o único, não o mais confortável mas o único. Ao sentar, uma sensação unica de prazer e felicidade me bateu no peito, eu delirava ao ver as pessoas entrando no bus e procuravam em vão um lugar que fosse para sentar, ficariam o resto da viagem em pé, submissas a todo o tipo de tortura, encochadas, cotoveladas, empurrões, braços erguidos com o delicioso cheiro do córrego próximo a sua casa.

Fazia um bom tempo que não me sentia tão feliz assim, por que eu estava confortável e as pessoas estariam se fudendo.

Até que… *suspiro* até que entra um homem com uma criança de colo, neste exato momento a unica que me veio a cabeça é “se fudeu”, mas nun foi esse tipo de se fudeu, tá mais pra um “SE FUDEU LEGAL, SEU IDIOTA“. O homem foi entrando no bus e parou na frente do segundo banco, neste momento todas pessoas dormiram repentinamente, ao menos as mais próximas, como se fosse uma desculpa para que ela não visse o homem num estado desconfortável. Só por que eu já passei por isso e é muito ruim você ficar com uma criança de colo enquanto as pessoas fingem não te ver, elas tiram artigos científicos da bolsa para ler, numa tentativa de não sair do lugar dela e permanecer confortáveis.

Humildimente levantei e chamei o homem oferecendo-lhe o meu lugar, ele veio falsamente agradecido com sua filha, logo atrás estava sua esposa e sua filha, para qual não dei muita atenção. O coletivo partiu em sua rota com sua velocidade habitual, foi quando a filha do homem começou a chorar.
Sinceramente não há  nada pior que um som alto e incessante, ainda mais quando sua vida já se encontra em estado deplorável.

O bus continuou seu caminho e o homem deu um jeito de fazer a criança cessar o choro. Como diria Joseph Climber “a vida, essa sim é uma caixinha de surpresa”. A cada pequena curva que o ônibus fazia sentia um pequeno empurrão em minhas pernas, o que de fato se tornava cada vez mais frequente e irritante, visto que eu já lutava contra força centripeda e a gravidade. Suspeitava da criança maior que acompanhava o casal, e era.
Mas… *suspiro longo* mas não era qualquer criança, era um rosto conhecido, o pior dos rostos.

Tempos atrás no meu trabalho uma criança gorda do sexo pirralha, me socara levando a baixo toda minha moral, e naquele exato momento eu me reencontrava com aquela criança. Naquela hora, todos os infanticídios faziam sentido para mim. Havia uma expressão de horror em minha face, misturada talvez com profunda tristeza.

Fiquei calmo e comecei a mentalizar foo fighters. Até que por algo que parecia ser uma recompensa o homem desceu, e o lugar se tornaria vago mais uma vez. Abaixei-me para pegar minha mochila, levantei e olhei para trás e vi que o lugar não se encontrava mais vago. Sabe eu penso que essas coisas acontecem pra testar minha paciência, dentro de mim deve haver um psicopata que é testado nessas ocasiões. Fiquei estarrecido com a cena, olhando para o nada e desejando que uma bomba caísse naquele ônibus, os desejos mais loucos me vieram a cabeça.

Fiquei tão… tão puto, que não percebi quando o bus passou do ponto, fechou com chave de ouro. Tive que andar 500 metros a mais.

Penso que se rico fosse, mamãe de carro me levaria.
Sofrer no ônibus não precisaria,
por extresse não passaria,
Fazer rimas toscas também não conseguiria.

*Citações feitas pelo professor de quimica

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3 comentários sobre “In the bus

  1. Carol disse:

    Anjinho…
    Puts meu, que vc tem moh cara de cdf jah percebi desde a primeira vez que te vi…
    Que vc é inteligente, saquei tbm na primeira vez que te vi pelos livros que vc pegava na mão…
    Caraca, não sabia que vc escrevia tão bem!!!
    Nossa… nem formandos em medicina, direito, ou ateh msm letras (no q eu sou formada), escrevem tão bem, tipo, adorei msm!!! E olha que já corrigi muito tcc…

    To de cara com vc!!!

    Bjão da Carol!!!

  2. Pingback: Saga da conta da Riachuelo « Mas que poxa

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