Crônicas, Senta que lá vem história

Oi, eu sou tio de parque infantil

Quando chegou as férias do meio do ano passado, decidi que seria bom se ganhasse um dinheiro. Pensei em várias formas de se obter isto honestamente, vendendo bala na rua, goiabinha na escola e outras coisas mais do que conhecidas. Mas um luz me veio em meio a escuridão de idéias quando uma professora minha deu a feliz e brilhante sugestão de ir trabalhar em um buffet infantil. “É sossegado, você ganha por dia e não tem vinculo nenhum.”

A primeira impressão, pensei que seria bem assim mesmo, trabalharia uns três, quatro dias no máximo sem fazer quase nada, e de quebra iria pegar as menininhas da festa.
Eu estava completamente errado, em todos os aspectos.

Não foi difícil achar contatos na internet para buffet, já que a cidade dispõem de vários, tive que ligar em no máximo três lugares para arranjar um “teste”, sendo que só não entrei nos dois primeiros por que precisavam entregar currículo, e sair da minha casa pra entregar um mero papel, a vá.
Bem, fiquei pensando nos milhares de testes possíveis e o que teria que fazer para me sair bem.
Fui  surpreendido por um teste que não era um teste, na verdade eu iria aprender como funcionava o parque, brinquedo por brinquedo eu aprendia as regras e como funcionava cada um.

O salário? Bem o salário é baixo, sem valores ok?

Dia 12/09 o terror

Eram quase 14:00 quando ligaram em casa, perguntando se eu não estava afim de trabalhar. Detalhe: O parque abre as 14:00. Entusiasmado disse que sim, mas que iria chegar um pouco tarde. Sem problemas, veio do outro lado do telefone.
Me apressei e sai logo de casa, no meio do caminho conferindo se estava tudo certo várias vezes. Ao terminar de cruzar uma rua e entrar na avenida, vi que havia um ônibus parado no ponto e haviam também pessoas para entrar nele, o ponto estava  a uns 200 metros mais ou menos e decidi que eu correria para alcança-lo. Eu corro numa velocidade razoavelmente rápida e na teoria alcançaria o ônibus a tempo, um pé na frente do outro e as minhas pernas se moviam a toda velocidade, enquanto corria ia olhando para o ônibus, as pessoas estavam entrando sem excitar. Estava então a 2 metros do ônibus quando o ultimo homem da fila se prontificava a entrar, ele olhou para trás e para o lado, me viu correndo e subiu o ultimo degrau, quase de imediato o motorista fecha a porta e no segundo seguinte eu estava na frente dela, mas ela continuava fechada, bati duas vezes na porta, o motorista apenas apertou o pedal do acelerador e se partiu. Estava ofegante demais para xinga-lo .

Depois de algum tempo consegui finalmente pegar um ônibus e ir para meu destino, o que levou aproximadamente uns 40 minutos, entre paradas e troca de ônibus. É um caminho que com o passar do tempo se tornou agradável, tinha que se tornar, pois a ida para o lugar influência muito no desenvolvimento do dia. Pense em um cara que cursa graduação em física indo para a UFSCAR, 1 hora no mesmo ônibus, cheio, estrada esburacada e sem fim, o curso já é atraente pra caramba, com mais uma dessa se torna um teste de resistência mental. De qualquer forma aprendi com toda minha experiência em viagens de ônibus como deixar o caminho para o trabalho mais agradável possível, ou eu ficaria louco, já que sempre tem alguém que coloca um deja vu pra tocar.

Finalmente cheguei no lugar que seria a salvação para minha falta de grana, o pretexto para declarar independência.
E seria a terceira vez que estava indo para aquele lugar, experiência em lugares assim é algo que conta muito, e 2 dias de trabalho não traz isso pra ninguém, nem trabalhar com parente, afinal todo mundo começa trabalhando com um parente. Voltando…

O parque tinha acabado de ser aberto e já haviam algumas crianças lá dentro. Se pudesse descrever o lugar em poucas palavras seria: Uma pequena parte do inferno.
Desci rapidamente a rampa que leva ao covil dos monitores, o lugar onde são decidas coisas importantes como quem será o primeiro a lanchar. Me troquei e subi. Me falaram qual era o brinquedo e lá fui eu ficar a postos, de camiseta verde limão e shorts azul marinho, pronto para a longa jornada de 8 horas de trabalho, pronto para tudo.
Mas tudo era muita coisa, ou talvez um ônibus e uma van ancorando no estacionamento do parque esteja além de tudo. 55 crianças na maioria de 5 anos desceram dos dois veículos. No começo foi algo nostálgico , lembrei da minha infância, e como era o gosto do pão com salsicha que era servido diariamente em uma época da “escola” que eu podia fazer tudo que eu quisesse, mas não fazia nada. Só que as crianças foram entrando eu me dando conta que elas viriam como formigas para cima do meu brinquedo, e algo parecido com desespero se abateu sobre mim, e elas vieram sem parar, incontáveis e doidas por diversão.

2 horas depois eu já estava pensando em me demitir, poderia até bater em uma ou duas crianças antes disso. Até que finalmente troquei de brinquedo, sabe aqueles filmes em que o espartano sai da guerra e dá aquela olhada para trás vendo o fogo, corpos e tudo mais? Então.

Pausa para finalmente beber água, que a essa altura estava quente mas não era tão importante assim.

(Nota: Faz tanto tempo que estou escrevendo isso que eu tenho que ficar revisando a bagaça pra saber onde parei)

As horas seguintes foram igualmente tensas, as crianças não davam sossego e não paravam de chegar e sempre eufóricas. Para tentar me distrair eu cantava, conversava com elas as vezes, se bem que as conversas não eram nada produtivas: “tio, olha meu machucado” “sabe, ontem eu fui na casa da minha tia, e lá…”.
Mais duas horas se passaram e finalmente hora do lanche, 15 minutos, 3 pães. A idéia é comer o mais rápido possível para poder descansar mais.

Voltei ao trabalho fortalecido e animado, as crianças pareciam ter dado uma acalmada. Atrás de mim haviam um grupo de senhoras conversando, umas 3 ou 4, falando sobre nada muito diferente de rotina, trabalho e familia. Repare você também, 99% das pessoas acima de 40 anos tem como único assunto esses três tópicos, quando se trata de homem talvez entre futebol, o que pra mim se enquadra em rotina. Não espero é claro ver essas pessoas discutindo sobre política ou algum assunto complexo, mais poderiam qualquer dia desses falar sobre, sei lá, tecnologia empregada na educação, por que não?

As 10 horas como era previsto o parque fechou, algumas crianças saiam a muito contragosto enquanto eu me trocava e me sentia no mínimo exausto, inebriado pelos gritos. Mas nada abafava a sensação de finalmente de estar recebendo meu dinheiro, ganhado com esforço e um pouco de suor, só um pouco.
Mais cedo quando tinha pensado em desistir, sabia que esse pensamento iria me vi outras tantas vezes, porem aprendi que desistir é fácil de mais. Fazem agora 8 meses que trabalho como monitor de um buffet infantil. Claro que quando me perguntam o que faço, falo com todo orgulho “eu interajo, gerencio e coordeno… crianças”.

No final do dia, pouco antes de dormir, lembrei do lanche que havia comido, o tal pão com queijo. Naquela hora tinha achado uma maravilha aquele tanto de queijo no pão, como eles eram bonzinhos e tals. Mas nem tudo é perfeito, fiquei pensando a noite inteira naqueles três pães com queijo que havia comido, a noite inteira dentro do banheiro com uma caganeira que se abateu sobre mim.

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2 comentários sobre “Oi, eu sou tio de parque infantil

  1. Rafa disse:

    ooow coordenador de seres vivos de faixa etária até 10 anos, chamado de TITIO DE FESTINHA ! UHAHUAUHAHUAUAHU, você escreve muito Igor .. parbens velho

  2. Pingback: Un buen ladrón « Mas que poxa*

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