Crônicas

À direita é o melhor lugar

Uma das maiores dúvidas de quem vai trabalhar de ônibus todos os dias, é saber em qual dos lados o sol “bate”.
Eu, que pego dois ônibus todos os dias (dois para ir e dois para voltar), vi logo que era do lado esquerdo que o sol ficava. Por isso declaro com veemência que só sento à direita.

Tenho o privilégio de escolher onde quero sentar todos os dias, pois moro perto do ponto final. Assim, regojizo diariamente de sombra e às vezes água fresca. Os outros que sentem-se ao sol escaldante que antecede a labuta diária.
Morar perto do ponto final está para a prole como nascer filho do dono de uma empresa está para a burguesia.
É um conforto paliativo diário – encosto a cabeça na janela do ônibus e durmo. Qualquer possibilidade de sol é tampada pelas pessoas que estão de pé, elas são parte integrante do meu conforto.
Dirão alguns que eu deveria me preocupar mais com as pessoas que estão do outro lado, à esquerda. Ora, se eles não tiveram o privilégio que eu tive, azar o deles. Do meu banco não saio nem para dar lugar a idoso.
Este lugar foi dado a mim e nele ficarei até a morte. Me deixem dormir, não quero pensar que hora ou outra posso ficar sem meu lugar à direita, muito menos na possibilidade do sol começar a bater aqui também.

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Crônicas, Senta que lá vem história

Chocolate

Aos 17 anos, eu descobri que stripper – dessas que vão até sua casa fazer show, era coisa de filmes como American Pie. Pelo menos isso é o que pareceu depois de algumas horas de busca na internet e nenhum resultado confiável. Você tem que ficar esperto quando está buscando essas coisas, tem que ter certeza da procedência da prestadora do serviço ou pode acabar sem alguns dentes se não achar algo que seja correto. Ou pior, acabar com um traveco na sua casa.
O Henrique ia fazer 17 anos em breve e a gente queria fazer uma surpresa para ele, mas depois de tanta procura e nenhum resultado, decidi que ia deixar de lado essa história. Até porque, no final das contas, nem teríamos grana para pagar uma stripper mesmo.

No final de semana que era aniversário dele, minha mãe foi viajar para Cotia. Com a casa livre, Pedro e eu decidimos que faríamos uma “Noite dos bons drink”(sic) e o homenageado seria o Henrique. Com direito a uma garrafa de vodka… e só.
Ninguém pensou em chamar garotas, porque a gente sabia que no final das contas garota nenhuma viria.
Então a festa, se é que se pode chamar disso, seria somente nós três.

Pedro e eu fomos ao supermercado e compramos a vodka, acho que era uma Smirnoff. No caixa o Pedro com medo que pedissem nosso RG, fez uma falsa ligação para o pai falando alguma coisa sobre o carro dele, carro esse que de fato não existia. O que ele não sabia é que eu tinha ido naquele supermercado justamente por que ninguém se importa se você tem 15 ou 18 anos, se vai entrar em como alcoólico ou até mesmo sair matando as pessoas, eles querem vender e ponto.
De qualquer forma saímos aliviados com a vodka para casa, nos vangloriando de como parecíamos adultos, apesar de na época não termo um resquício de bigode na cara.

O Henrique chegou um pouco depois de colocarmos a vodka no congelador. Ligou seu computador no meu home theater e começou a tocar algumas músicas eletrônicas estranhas. O Henrique sempre curtiu esse lance de ser DJ, fez até curso fora da cidade, mas não vingou.
A gente começou a dançar como se a música fosse mesmo animada.
Depois de um tempo, o Pedro decidiu que já estava na hora de tirar a vodka da geladeira para preparar alguma coisa.
Minha geladeira estava que nem boate, só havia fumaça e água. Por sorte achamos uns limões perdidos.
– Se Deus te der limões… faça uma caipirinha. Disse um de nós três.

Ia ser o nosso primeiro porre, ou pelo menos ia ser o meu primeiro porre. Eu sempre tive uma aversão muito grande com bebidas e principalmente com o fato de ficar bêbado, mas naquela noite eu estava meio que no foda-se.
A bebida ficou pronta e, apesar do gosto amargo, até que estava tragável.
Me senti incrível que mesmo depois de uns dois copos, eu ainda me mantinha sóbrio. Só que eu não queria parar por ali, na verdade ninguém queria.
Quando acabou o limão, a gente nem se importou muito. Afinal, vodka pura não deve ser tão ruim assim, os russos tomam todo dia antes de ir dormir.

Só fui perceber que já estava bem bêbado, quando em um momento da noite eu vi que havia pão de queijo no forno. Assado. Como ele foi parar lá? Quem assou? Um mistério maior que esse mistério.
O Pedro já estava bastante alterado, ou se fingia de, pois pegou alguns pães de queijo e começou a tacar na gente. O que pareceu ser divertido no começo ficou meio chato depois.
Eu já estava cambaleando pelos sofás e o Henrique tocando freneticamente como quem toca no XXXperience. Mas aquela noite parecia não ter fim.
Você perde a noção de tudo quando se está bêbado. Tempo e espaço se misturam de um jeito que parece que você está em um buraco de minhoca.

Dois dias antes, minha mãe havia comprado um mamão bem grande. Ela dizia que ia fazer alguma sobremesa com ele.
Bem, eu não consegui pensar em sobremesa nenhuma quando o Pedro ergueu o mamão acima da cabeça e gritou “EU JOGO VÔLEI” e bateu no mamão como se fosse uma raquete na minha direção. Meus reflexos estavam tão rápidos que eu só levantei as mãos para parar aquele mamão quando ele já havia acertado meu peito. O Pedro realmente jogava vôlei, eu também. Mas não me lembrei disso.
Cai no sofá e comecei a dar risada daquilo. Ficar bêbado era de fato muito estranho.

Puxamos o Henrique para o meio da sala e começamos a rodar, os três gritando “Parabéns pro Henrique! Parabéns pro Henrique! Parabéns pro Henrique!”
A gente começou a chacoalhar a cabeça um do outro e depois exaustos, capotamos no sofá.

De início, a festa era para durar umas duas horas no máximo. Não sei por que eu achei isso, mas na minha cabeça estar bêbado era algo que pudesse ser controlado.
Às 1:00 da manhã, eu me dei conta de que minha mãe chegaria em poucas horas e a sala estava uma zona. Como quem está prestes a ser levado à forca, me bateu um desespero de que minha vida acabaria em breve, assim que aquele portão se abrisse e minha mãe visse aquela cena lastimável.
Corri para o chuveiro para tentar tirar o cheiro de vodka e tentar recuperar alguma sobriedade.

Enquanto tomava banho -e cantava Foo Fighters no banheiro, o Pedro anunciou uma catástrofe de menores proporções, mas nem por isso tão destrutiva quanto a principal: o pai do Henrique estaria ali dentro de alguns minutos para buscar ele. Nesse momento o Henrique estava deitado no sofá passando muito mal. Eu continuava no chuveiro, já estava quase incorporando o Dave Grohl (caso ele estivesse morto).
Buerghhhhhhh, Buerghhhhhhhhh foi o barulho que eu ouvi vindo da sala e logo após tive a confirmação que o Henrique havia vomitado.
Até eu sair do chuveiro definitivamente ele vomitou mais umas três vezes.

Eu continuava bêbado – e continuaria assim até o dia seguinte, quando fui ver o vômito do Henrique. Uma enorme poça marrom/preta que ia do sofá até o chão, com direito a respingos na parede.
Nunca vi ninguém vomitar tanto chocolate como naquele dia. Na verdade nunca vi ninguém vomitar tanto como ele naquele dia.
Atendemos a ligação do pai dele, que já havia ligado três vezes antes e ninguém atendera.
Ele estava na padaria há uns 10 minutos de casa. Se bem que naquelas condições a gente sabia que ia demorar uma década para levar ele até lá.
Mas como soldados em uma missão, extraímos nossas últimas forças e saímos em marcha até a padaria.

A rua que leva até a padaria foi palco de uma outra cena ímpar. O Henrique, que há pouco já havia perdido o comando das suas necessidades fisiológicas (como se vomitar fosse uma) disse que precisava desesperadamente mijar.
Como estávamos no meio do caminho, não havia chances de voltarmos para casa, seria um esforço grande demais que não estávamos despostos a enfrentar.
– Aqui não tem banheiro. Disse o Pedro para ele
– Tudo bem. Disse o Henrique em um tom tão calmo que me pareceu estranho, parecia que ele havia se entregado. E foi isso mesmo.
A gente entendeu o que aquele “tudo bem” significava. A perna do Henrique começou a ficar molhada repentinamente, até que tudo desceu pela canela.
Rimos da desgraça alheia, que era nossa desgraça também. Acho que nesse momento até eu mijei um pouco nas calças.

Quando chegamos na padaria, o pai do Henrique já se encontrava no carro com uma cara de poucos amigos. Eu preferi deixar essa bomba nas mãos do Pedro mesmo e nem me aproximei do carro.
Ele levou o Henrique até o carro, disse ao pai dele que ele havia comido alguns pães de queijo que não lhe fizeram bem. Fico me perguntando até hoje como o Pedro pode dizer uma coisa daquelas.
O pai do Henrique apenas abriu a porta do carro e depois foi embora.

Voltamos eu e o Pedro para casa, discutindo como faríamos para arrumar aquela bagunça toda e, principalmente o vômito.
Quando chegamos, peguei uns dois panos para tentar limpar a poça de chocolate estomacal. Não adiantava.
Lavei eles uma vez e tornei a passar sobre o vômito. Aquilo de fato não tinha fim.
O Pedro deu uma arrumada na pia e me lembrou de jogar a garrafa de vodka fora.
Seguramos eu e ele a ponta da garrafa, contamos até três e jogamos no terreno baldio ao lado, na esperança de que todos aqueles problemas, sujeiras e vômitos fossem juntos.

Sem forças para continuar limpando aquela gosma marrom, eu decretei que a gente precisava dormir.
Acho que quando a gente fechou os olhos a gente meio que morreu. Pelo menos por umas três horas, quando minha chegou e acendeu a luz do quarto, perguntando o que havia acontecido.
– Bebi. Respondi e morri novamente.

Quando acordamos o Pedro tratou logo de ir embora.
Eu me levantei e descobri que ressaca tinha algo a ver com estar muito zonzo, pálido e com sede. Felizmente não tinha dor de cabeça.
Fui para a sala, fiquei ali de pé contemplando todo o chocolate vomitado que ainda restava pela sala.

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Guarda-chuva

Você estava sentada de frente para sua amiga e eu encostei ali por perto.
Deixei minha mochila no chão e pendurei meu guarda-chuva na grade. O ônibus cheio de gente e de barulho.

Seu cabelo esculpido ao vento, seus olhos âmbar e o piercing no nariz. Nada disso chamava tanta atenção quanto o desenho da coruja gravada na pele do seu peito.
Eu tive certeza que pecado tinha alguma coisa a ver com aquilo.
Você curvada para sua amiga. Seu decote cada vez mais generoso.
Meus olhos percorrendo tudo aquilo, vendo sua tatuagem, a curva dos seus seios. Imaginei o resto que não estava a mostra.
Coloquei alguma música na esperança de que meu gosto musical chama-se sua atenção. Nada.

O ônibus chegou no ponto da faculdade, peguei minha mochila e desci, pensando se veria novamente, você, sua amiga e a coruja.

Só mais tarde, me dei conta de que havia deixado meu guarda-chuva no ônibus. Bosta.

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Toalha Xadrez

Quando convido alguém para um piquenique, é quase como uma declaração de amor.
É um convite a se desligar de uma rotina por vezes caótica. Olhar o mundo com outros olhares e perspectivas.
A grama verde e o céu azul, contrastam-se com a típica toalha amarronzada. Sobre ela normalmente tem suco, bolo e pão. O que não pode faltar são boas risadas, memórias gostosas e os diversos sons da natureza.

Às vezes esquecemos de olhara para as coisas simples do dia a dia e não percebemos que a felicidade pode estar em outros padrões, de vida e de tecido.

Originalmente publicado na Viva Melhor – Clínica Viva

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Nova classe média

O pai do meu amigo tem uma BMW, que acende o farol igual ao do comercial. É um carro muito bonito.
Esse meu amigo é muito popular na faculdade, até mesmo entre os professores.
Às sextas ele vai para a balada e aos sábados também. No domingo de manhã vai para a igreja. Depois sempre rola um churrasco na casa dele, eu ainda não fui em nenhum.
Na segunda ele me conta que pegou 5 na sexta e 7 no sábado. No domingo ele xavecou uma.
Ele acaba sempre chegando meio tarde na aula, quando vem é claro. Esse meu amigo está sempre envolvido em coisas da faculdade, como as festas organizadas pela atlética.
Ele vai religiosamente todos os dias para a academia, seu santo é o Wey Protein.
Logicamente ele não trabalha, meu amigo é muito novo pra isso.
O pai desse meu amigo tem um sobrenome, daqueles bonitos com cara ser estrangeiro, italiano ou espanhol eu diria. O meu amigo herdou esse sobrenome.

Eu tenho um sobrenome também, mas sem ar de estrangeirismo.
Filho da filha do filho de escravos, que sem sobrenome nenhum adotaram o dos seus ex-senhores na hora do registro.
Herdei o Souza.

O meu amigo mora em um cultuado condomínio fechado, com piscina  aquecida.
Eu moro na zona norte e nada mais precisa ser dito.
Lá só tem gente do bem, aqui só tem trombadinha.
Eu, que sou trombadinha também nessa falácia, frequento a mesma faculdade que esse meu amigo.
A mensalidade sai do meu bolso, e do bolso do pai do meu amigo. Já que do bolso do meu amigo só sai a chave da BMW quando o pai dele empresta.

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Não morreu de amor

Estavam todos reunidos na sala de reunião, atônitos.
– Não é possível, como assim o Zé morreu?
– Realmente não dá pra acreditar, pobre Zé, amigo para todas as horas.
– E morreu do quê? De amor?
– Não, não morreu de amor. Antes fosse, morreu de um jeito que eu nem achava que era possível morrer.
– Se não foi de amor, foi do quê? Que dó do Zé.
– Morreu de tanto trabalhar!
– Vigie, isso é possível?
– Não sei, mas o Zé morreu disso, o IML já constatou no atestado de óbito.
Recebeu um monte de papelada na mesa hoje pela manhã, morreu na hora.
– E a família?
– Todo mundo muito triste, ninguém esperava.
– Amanhã passo lá para vê-los.
– Faça isso. Agora vamos voltar para a sala, tenho um monte de e-mail para responder.

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Crônicas

Aos poucos.

– Isso é o que mata

“Isso”, são as coisas que nos acontecem todos os dias, e não reparamos.

O ônibus que vem lotado,
a fila de espera no hospital,
as contas para serem pagas.

E de pouquinho em pouquinho a gente vai morrendo, sem perceber.
Menos 5 minutos de vida pra cada atendente mal educado que não resolve nosso problema.
Menos 10 minutos por aquela fechada no trânsito.
E nessa soma de tempo, subtrai-se uma vida inteira.

– Morreu de que?
– De pequenas coisas. Essas do cotidiano.

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