Crônicas

À direita é o melhor lugar

Uma das maiores dúvidas de quem vai trabalhar de ônibus todos os dias, é saber em qual dos lados o sol “bate”.
Eu, que pego dois ônibus todos os dias (dois para ir e dois para voltar), vi logo que era do lado esquerdo que o sol ficava. Por isso declaro com veemência que só sento à direita.

Tenho o privilégio de escolher onde quero sentar todos os dias, pois moro perto do ponto final. Assim, regojizo diariamente de sombra e às vezes água fresca. Os outros que sentem-se ao sol escaldante que antecede a labuta diária.
Morar perto do ponto final está para a prole como nascer filho do dono de uma empresa está para a burguesia.
É um conforto paliativo diário – encosto a cabeça na janela do ônibus e durmo. Qualquer possibilidade de sol é tampada pelas pessoas que estão de pé, elas são parte integrante do meu conforto.
Dirão alguns que eu deveria me preocupar mais com as pessoas que estão do outro lado, à esquerda. Ora, se eles não tiveram o privilégio que eu tive, azar o deles. Do meu banco não saio nem para dar lugar a idoso.
Este lugar foi dado a mim e nele ficarei até a morte. Me deixem dormir, não quero pensar que hora ou outra posso ficar sem meu lugar à direita, muito menos na possibilidade do sol começar a bater aqui também.

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